Entre 2 e 3 de outubro de 2019, o Furacão Lorenzo — o ciclone tropical mais forte já registrado tão próximo da Europa — varreu os Açores com ventos de até 145 km/h e ondas de 15 metros, deixando 255 ocorrências em 24 horas e 53 pessoas desalojadas, principalmente na Ilha do Faial. O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) havia emitido alerta vermelho para sete ilhas, incluindo Flores, Corvo e Pico, enquanto o Governo dos Açores declarou situação de crise energética nas ilhas mais ocidentais. O impacto foi tão profundo que, seis anos depois, ainda se sente.
Um furacão que desafiou os recordes
O Furacão Lorenzo foi o primeiro ciclone de categoria 5 a se formar tão ao leste do Atlântico, a mais de 3.000 km da costa africana. O Centro Nacional de Furacões (NHC) dos EUA registrou sua intensificação mais rápida da história: passou de tempestade tropical a furacão de categoria 4 em menos de 12 horas. Mesmo ao chegar aos Açores já como sistema extratropical — e com força reduzida —, sua energia residual foi suficiente para derrubar árvores, desligar a eletricidade em 90% das ilhas e destruir casas inteiras em áreas costeiras.Na Ilha do Faial, as rajadas de 145 km/h arrancaram telhados, lançaram veículos como brinquedos e cortaram a ligação com o mar. O porto de Porto das Flores virou cena de caos: contêineres virados, docas rachadas, e o único cais de carga do arquipélago ocidental, inoperacional. Imagens da TVI mostravam ondas de até 25 metros, mais altas que prédios de cinco andares, esmagando embarcações e arrastando redes de pesca para o alto-mar.
Desalojados, sem luz e sem porto
Em 1º de outubro de 2019, a RTP Notícias relatou que 53 pessoas foram realojadas em centros de emergência, muitas delas da Ilha do Faial. Nas Flores e Corvo, o vento chegou a 200 km/h. O porto comercial — único ponto de entrada de alimentos, medicamentos e combustível — foi completamente destruído. Por meses, os moradores viveram à mercê de voos da Força Aérea Portuguesa. O leite, o pão, o gás de cozinha: tudo chegava por ar.O Governo dos Açores, então liderado por José Manuel Bolieiro, declarou em 3 de outubro de 2019 uma "situação de crise energética" para garantir prioridade ao abastecimento de combustível. Sem ele, os geradores falhavam, os hospitais corriam risco e os pescadores não podiam sair. O prejuízo total foi estimado em 330 milhões de euros — o equivalente a quase 10% do orçamento anual da região na época.
Seis anos depois: a reconstrução que nunca chegou
Mesmo em 2025, o legado do Furacão Lorenzo ainda está vivo. Em maio daquele ano, o Governo Regional dos Açores anunciou que a reconstrução do porto das Flores custaria 230 milhões de euros e só estaria concluída em 2030 — onze anos após o desastre. A obra, que inclui um novo cais de 300 metros, sistemas de contenção de ondas e infraestrutura digital de logística, foi adiada por burocracia, licitações falhas e a pandemia.O Jornal Incentivo apontou em setembro de 2025 que os Açores estavam na rota do segundo furacão em seis anos — o Gabrielle. Mas, como destacou o Observador, "Gabrielle não será mais violento que Lorenzo". A comparação não era apenas meteorológica: era de vulnerabilidade. As escolas, os hospitais, os sistemas de energia — todos ainda tinham cicatrizes.
Em outubro de 2023, o Portal do Governo dos Açores confirmou intervenções na Escola Manuel de Arriaga, em Horta, após danos estruturais causados por infiltrações e ventos fortes. O dano não foi só físico. Foi psicológico. Muitos moradores das ilhas ocidentais ainda não voltaram às suas casas. Outros, simplesmente, não quiseram.
Por que isso importa para todos nós
O Furacão Lorenzo não foi só um evento climático. Foi um alerta. Os Açores, localizados em um ponto estratégico do Atlântico, são agora um laboratório vivo da crise climática. O aumento da temperatura das águas do oceano — 1,5°C acima da média histórica em 2025 — favorece a formação de ciclones mais intensos e mais frequentes. E as ilhas, com infraestrutura antiga e isolamento geográfico, são as primeiras a sofrer.Quando o NHC emitiu um alerta de "rajadas de vento significativas com força de furacão" mesmo após a passagem do centro, não estava apenas prevendo tempo. Estava dizendo: preparem-se. Porque, desta vez, não haverá um segundo aviso.
Frequently Asked Questions
Por que o Furacão Lorenzo foi tão raro?
Lorenzo foi o primeiro furacão de categoria 5 a se formar tão ao leste do Atlântico, a mais de 3.000 km da África, e o mais próximo da Europa já registrado. Sua intensificação rápida — de tempestade tropical a furacão de categoria 4 em menos de 12 horas — foi rara para essa região. Mesmo após se tornar extratropical, sua energia residual ainda foi capaz de causar danos catastróficos nos Açores, algo inédito na história meteorológica portuguesa moderna.
Como o furacão afetou o abastecimento das ilhas ocidentais?
O porto comercial das Flores foi totalmente destruído, interrompendo o transporte marítimo de alimentos, medicamentos e combustível por meses. O abastecimento passou a depender exclusivamente de voos da Força Aérea Portuguesa, que tinham capacidade limitada. Em 2025, ainda havia relatos de atrasos e falta de medicamentos essenciais, mostrando que a infraestrutura não foi totalmente restaurada, apesar dos recursos alocados.
Por que a reconstrução do porto das Flores está demorando tanto?
A obra enfrentou atrasos por licitações mal-sucedidas, burocracia administrativa e falta de consenso técnico sobre o tipo de estrutura mais resiliente. Além disso, a pandemia e a escassez de materiais de construção elevaram os custos. O orçamento de 230 milhões de euros só foi aprovado em 2024, e a previsão de conclusão é 2030 — onze anos após o desastre. Muitos moradores questionam se o projeto será realmente capaz de resistir a futuros eventos extremos.
O que mudou nos alertas climáticos desde 2019?
O IPMA aprimorou seus modelos de previsão e passou a emitir alertas vermelhos com maior antecedência, especialmente para ilhas remotas. Em 2025, durante o furacão Gabrielle, os avisos foram enviados 72 horas antes da chegada, comparado às 24 horas de Lorenzo. Mas a capacidade de resposta ainda é limitada por falta de recursos humanos e logísticos nas ilhas mais isoladas.
Como os moradores estão se preparando para futuros furacões?
Comunidades nas ilhas ocidentais criaram redes de apoio locais, armazenam alimentos e combustível em casa e treinam voluntários para emergências. Em Horta, foi implantado um sistema de sirenes de alerta com conexão via satélite, já que a rede elétrica é instável. Mas muitos ainda não têm seguro contra desastres naturais — e o governo não oferece subsídios suficientes para isso. A preparação é individual, não institucional.
O Furacão Lorenzo é um sinal de que os Açores estão se tornando mais vulneráveis?
Sim. A temperatura média do oceano nos Açores subiu 1,5°C desde 2000, aumentando a probabilidade de furacões se formarem mais ao norte e mais intensos. Estudos da Universidade dos Açores mostram que, entre 2020 e 2025, houve um aumento de 40% na frequência de tempestades com ventos acima de 120 km/h. Lorenzo não foi um evento isolado — foi o primeiro de uma nova era climática. E as ilhas ainda não estão prontas.