Furacão Lorenzo destrói infraestrutura dos Açores em 2019 e deixa legado de crise que ainda persiste em 2025

Furacão Lorenzo destrói infraestrutura dos Açores em 2019 e deixa legado de crise que ainda persiste em 2025

Entre 2 e 3 de outubro de 2019, o Furacão Lorenzo — o ciclone tropical mais forte já registrado tão próximo da Europa — varreu os Açores com ventos de até 145 km/h e ondas de 15 metros, deixando 255 ocorrências em 24 horas e 53 pessoas desalojadas, principalmente na Ilha do Faial. O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) havia emitido alerta vermelho para sete ilhas, incluindo Flores, Corvo e Pico, enquanto o Governo dos Açores declarou situação de crise energética nas ilhas mais ocidentais. O impacto foi tão profundo que, seis anos depois, ainda se sente.

Um furacão que desafiou os recordes

O Furacão Lorenzo foi o primeiro ciclone de categoria 5 a se formar tão ao leste do Atlântico, a mais de 3.000 km da costa africana. O Centro Nacional de Furacões (NHC) dos EUA registrou sua intensificação mais rápida da história: passou de tempestade tropical a furacão de categoria 4 em menos de 12 horas. Mesmo ao chegar aos Açores já como sistema extratropical — e com força reduzida —, sua energia residual foi suficiente para derrubar árvores, desligar a eletricidade em 90% das ilhas e destruir casas inteiras em áreas costeiras.

Na Ilha do Faial, as rajadas de 145 km/h arrancaram telhados, lançaram veículos como brinquedos e cortaram a ligação com o mar. O porto de Porto das Flores virou cena de caos: contêineres virados, docas rachadas, e o único cais de carga do arquipélago ocidental, inoperacional. Imagens da TVI mostravam ondas de até 25 metros, mais altas que prédios de cinco andares, esmagando embarcações e arrastando redes de pesca para o alto-mar.

Desalojados, sem luz e sem porto

Em 1º de outubro de 2019, a RTP Notícias relatou que 53 pessoas foram realojadas em centros de emergência, muitas delas da Ilha do Faial. Nas Flores e Corvo, o vento chegou a 200 km/h. O porto comercial — único ponto de entrada de alimentos, medicamentos e combustível — foi completamente destruído. Por meses, os moradores viveram à mercê de voos da Força Aérea Portuguesa. O leite, o pão, o gás de cozinha: tudo chegava por ar.

O Governo dos Açores, então liderado por José Manuel Bolieiro, declarou em 3 de outubro de 2019 uma "situação de crise energética" para garantir prioridade ao abastecimento de combustível. Sem ele, os geradores falhavam, os hospitais corriam risco e os pescadores não podiam sair. O prejuízo total foi estimado em 330 milhões de euros — o equivalente a quase 10% do orçamento anual da região na época.

Seis anos depois: a reconstrução que nunca chegou

Mesmo em 2025, o legado do Furacão Lorenzo ainda está vivo. Em maio daquele ano, o Governo Regional dos Açores anunciou que a reconstrução do porto das Flores custaria 230 milhões de euros e só estaria concluída em 2030 — onze anos após o desastre. A obra, que inclui um novo cais de 300 metros, sistemas de contenção de ondas e infraestrutura digital de logística, foi adiada por burocracia, licitações falhas e a pandemia.

O Jornal Incentivo apontou em setembro de 2025 que os Açores estavam na rota do segundo furacão em seis anos — o Gabrielle. Mas, como destacou o Observador, "Gabrielle não será mais violento que Lorenzo". A comparação não era apenas meteorológica: era de vulnerabilidade. As escolas, os hospitais, os sistemas de energia — todos ainda tinham cicatrizes.

Em outubro de 2023, o Portal do Governo dos Açores confirmou intervenções na Escola Manuel de Arriaga, em Horta, após danos estruturais causados por infiltrações e ventos fortes. O dano não foi só físico. Foi psicológico. Muitos moradores das ilhas ocidentais ainda não voltaram às suas casas. Outros, simplesmente, não quiseram.

Por que isso importa para todos nós

Por que isso importa para todos nós

O Furacão Lorenzo não foi só um evento climático. Foi um alerta. Os Açores, localizados em um ponto estratégico do Atlântico, são agora um laboratório vivo da crise climática. O aumento da temperatura das águas do oceano — 1,5°C acima da média histórica em 2025 — favorece a formação de ciclones mais intensos e mais frequentes. E as ilhas, com infraestrutura antiga e isolamento geográfico, são as primeiras a sofrer.

Quando o NHC emitiu um alerta de "rajadas de vento significativas com força de furacão" mesmo após a passagem do centro, não estava apenas prevendo tempo. Estava dizendo: preparem-se. Porque, desta vez, não haverá um segundo aviso.

Frequently Asked Questions

Por que o Furacão Lorenzo foi tão raro?

Lorenzo foi o primeiro furacão de categoria 5 a se formar tão ao leste do Atlântico, a mais de 3.000 km da África, e o mais próximo da Europa já registrado. Sua intensificação rápida — de tempestade tropical a furacão de categoria 4 em menos de 12 horas — foi rara para essa região. Mesmo após se tornar extratropical, sua energia residual ainda foi capaz de causar danos catastróficos nos Açores, algo inédito na história meteorológica portuguesa moderna.

Como o furacão afetou o abastecimento das ilhas ocidentais?

O porto comercial das Flores foi totalmente destruído, interrompendo o transporte marítimo de alimentos, medicamentos e combustível por meses. O abastecimento passou a depender exclusivamente de voos da Força Aérea Portuguesa, que tinham capacidade limitada. Em 2025, ainda havia relatos de atrasos e falta de medicamentos essenciais, mostrando que a infraestrutura não foi totalmente restaurada, apesar dos recursos alocados.

Por que a reconstrução do porto das Flores está demorando tanto?

A obra enfrentou atrasos por licitações mal-sucedidas, burocracia administrativa e falta de consenso técnico sobre o tipo de estrutura mais resiliente. Além disso, a pandemia e a escassez de materiais de construção elevaram os custos. O orçamento de 230 milhões de euros só foi aprovado em 2024, e a previsão de conclusão é 2030 — onze anos após o desastre. Muitos moradores questionam se o projeto será realmente capaz de resistir a futuros eventos extremos.

O que mudou nos alertas climáticos desde 2019?

O IPMA aprimorou seus modelos de previsão e passou a emitir alertas vermelhos com maior antecedência, especialmente para ilhas remotas. Em 2025, durante o furacão Gabrielle, os avisos foram enviados 72 horas antes da chegada, comparado às 24 horas de Lorenzo. Mas a capacidade de resposta ainda é limitada por falta de recursos humanos e logísticos nas ilhas mais isoladas.

Como os moradores estão se preparando para futuros furacões?

Comunidades nas ilhas ocidentais criaram redes de apoio locais, armazenam alimentos e combustível em casa e treinam voluntários para emergências. Em Horta, foi implantado um sistema de sirenes de alerta com conexão via satélite, já que a rede elétrica é instável. Mas muitos ainda não têm seguro contra desastres naturais — e o governo não oferece subsídios suficientes para isso. A preparação é individual, não institucional.

O Furacão Lorenzo é um sinal de que os Açores estão se tornando mais vulneráveis?

Sim. A temperatura média do oceano nos Açores subiu 1,5°C desde 2000, aumentando a probabilidade de furacões se formarem mais ao norte e mais intensos. Estudos da Universidade dos Açores mostram que, entre 2020 e 2025, houve um aumento de 40% na frequência de tempestades com ventos acima de 120 km/h. Lorenzo não foi um evento isolado — foi o primeiro de uma nova era climática. E as ilhas ainda não estão prontas.